terça-feira, 8 de setembro de 2020

o gosto pelo inédito
a rotina já não me proporciona nada
não me esboça sorrisos
 
mudanças repentinas de humor

somos a geração que se acostumou mal demais
não é uma crítica, é um fato
é tudo tão rápido
a paciência perde-se na essência
do diferente,
tão diferente,
como todos os outros

esse filme está arrastado demais,
e já não consigo me concentrar numa música
sem passar sucessivamente para a próxima
é quase como um macarrão instantâneo de 3 minutos
que a gente acaba preferindo comer cru. 

neurastenia

ontem tive mais uma daquelas
crises dissociativas, sabe?
perco um pouco dos movimentos,
não consigo relacionar
eu
espaço
tempo.

como poderia dizer caio fernando,
são como morangos mofados
um azedume imenso.
e as vezes dá uma vontade de
viver de arte,
não, calma, eu vou fazer umas pinturas,
estampar umas camisetas,
vender poemas, esses mesmos,
na beira da estrada
talvez eu me sinta mais
eu.

já não consigo mais
sentir prazer
no convívio com
outros.
quem são esses outros
e por que eles
importam?

acabo, então, nessa
neurastenia
anedonia
é mais saudável se isolar
dormir, viver no
inconsciente
por ali nada dói

eu não existo. 

hipocondria

cada vez que eu fumo eu
me traio um pouquinho mais.
não consigo dizer não,
eu fico naquela esperança de sentir algo,
deus, por favor, eu quero sentir algo.

mas eu não sinto algo.
eu sinto tudo.
me sinto esquizofrênica.
minha mente se torna um poço
com águas escuras, tão escuras
não consigo me enxergar nela.

minha visão se nubla
já não sabe conceber o que acontece
uma confusão entre o certo e o errado.
gestos meticulosamente repetitivos
uma olhada pra trás pra garantir 
que ninguém está olhando. 

someday

existe muita beleza na
tristeza,
sabe.
ela te tem muito fácil:
te chama, provoca, assim
no pé do ouvido,
como quem não quer nada.
suspira, grita, e você se
permite sentir.

uma noite de quinta-feira,
fria e melancolicamente bonita.
você vê prédios, edifícios,
estradas e residências.
tudo parece muito novo, inédito
hoje você tem um olhar... diferente.

gripes que não curam e
discos tocados repetidamente,
riscos, ruídos, ruínas:
é uma velha casa,
uma morada, uma fuga,
escape.

longa estrada, velha amiga

acho que sou muito
ligada à
arte.
tem essa
necessidade
de ouvir uma música
cada vez que escrevo

tem uma banda gaucha
eu sei, ela não é tão boa
como antes.
depois que passa dos primeiros cds,
eles dizem,
como o verso de outra banda gaucha
“o papa é pop,
o pop não poupa ninguém”,
coisa e tal. 

eu queria poder fazer uma mala
andar, andar, andar
aproveitar cada pedacinho daquilo que
parece
tão
utópico.

fica frustrante existir, sabe
“me sentia como uma pilha
numa engrenagem”
eu ouvi essa esses dias
é a mais pura verdade. 

hipotético

eu imagino uma cena de suicídio

uma vitrola toca em loop
in my life
enquanto próximo a uma banheira uma
moça caída ao chão
com seus pulsos cortados e medicamentos ao lado
havia uma carta, sim, uma carta
mas não sabemos se por tempo suficiente antes
dela se arrepender e pensar que antigos
amores
não mereciam viver com esse peso na
consciência

foi livre arbítrio
minha escolha
eu poderia ter evitado
eu.

you play a very agressive game

nós somos desastres
esperando para
acontecer
(acidentes)
perto,
mas nunca perto o
suficiente.


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